Conto Folclórico com Adaptações
Por Robson Matos
Nos idos de 1960, quando o rádio ainda era rei e o tempo corria devagar nas margens do Rio Parauaú, havia e ainda há uma localidade conhecida como Boca de Breves, onde as águas se encontravam para contar seus próprios segredos. Era lá que morava Mundico, um rapaz franzino de 15 anos, filho de Seu Zeca e Dona Maria, pescadores e agricultores de raiz e alma, gente ribeirinha que aprendeu com a natureza mais do que qualquer livro podia ensinar.
Todos os dias, Mundico se levantava antes do sol, botava seu chapéu de palha, pegava a vara, o caniço, a linha, a isca e o balde de lata já meio enferrujado. Beijava a testa da mãe e saía remando sua pequena canoa rumo à baía que se formava em direção ao município de Bagre.
Seu Zeca costumava dizer: — “Cuidado com a calmaria que vira tormenta, menino. E se ver mulher no meio do rio… reza e rema.”
Mundico ria. Achava que o velho só queria assustá-lo com história de assombração.
Mas foi num sábado, desses em que o sol nasce dourando as águas como se fosse bênção divina, que o estranho aconteceu. Mundico, como sempre, estava em silêncio, pescando, olhos no horizonte.
De repente, o céu ficou cinza de uma vez só. Um vento frio bateu. Trovões ribombaram como tambores de guerra. O rio, antes manso, começou a se revoltar. Foi quando ele viu.
A uns vinte metros da canoa, surgiu uma figura que não parecia deste mundo. Era uma mulher. Tinha cabelos longos e dourados, que cobriam seu rosto como véu de encanto. Sua pele era alva como o linho lavado na água de igarapé. Flutuava, girava sobre as águas revoltas como se dançasse com o próprio vento.
Mundico ficou paralisado. A mulher se aproximava e se afastava, como que brincando com o medo do rapaz. Até que, de repente, num movimento rápido como raio, mergulhou à frente da canoa e apareceu do outro lado.
Seus olhos… ah, seus olhos! Eram azuis como o céu de verão, mas com um contorno vermelho como brasa acesa. Ela soprou o rosto de Mundico. Um sopro frio, feito o de quem sopra a vela de uma vida.
E então, num salto de golfinho encantado, desapareceu rumo ao horizonte.
Mundico caiu desacordado.
No outro dia, foi encontrado por pescadores, à deriva, sem saber onde estava ou o que havia acontecido.
Em casa, sua mãe chorava de alívio ao vê-lo vivo: — “Meu filho, meu filho… Pensei que te tinha perdido pro rio.”
Seu Zeca olhou sério: — “Eu avisei, Mundico. Tu viu a Mãe D’água. Ela não leva quem é de má alma, mas encanta pra ensinar.”
O menino, ainda meio grogue, murmurou: — “Ela olhou pra mim… e parecia triste.”
Naquela noite, sentados à luz de lamparina, os irmãos de Mundico ouviram o relato inteiro. Um deles, o mais novo, arregalava os olhos: — “E ela falava?”
— “Não… mas o olhar dela dizia muita coisa. Era como se pedisse pra eu voltar, pra não esquecer quem sou nem de onde vim…”
Nos dias que seguiram, Mundico já não pescava por pescar. Observava mais, respeitava os sinais da natureza, conversava com os velhos, ouvia as histórias da vó Joaquina — que dizia que a Mãe D’água protegia o rio e os que nele viviam.
Anos depois, Mundico se tornou conhecido como “o pescador que viu a Encantada” — e passou a ensinar aos mais novos que o rio não é só água, mas também espírito. E que as lendas são avisos — não de medo, mas de respeito.
“A Mãe D’água não leva quem ama o rio. Ela leva quem se esquece de que ele é vivo, sagrado, e precisa de cuidado.”, dizia ele.
E até hoje, nas rodas de conversa da Boca de Breves, ainda se conta que às vezes, nos dias de sol que viram tormenta, pode-se ver uma silhueta dançando sobre as águas — lembrando que os encantos da Amazônia não são apenas mistérios, mas lições que o tempo insiste em repetir.
Robson Matos, é nascido em Breves.







