Um conto folclórico-marajoara com ecos de ciência, encantamento e mistério.

Por Robson Matos

Na vastidão verdejante que pulsa no coração da Ilha do Marajó, entre as cidades de Breves e Anajás, há uma estrada que serpenteia por entre árvores centenárias, igarapés de águas frias e murmúrios da mata. Aquela estrada, que muitos cruzam com pressa, é, para os atentos e silenciosos, um santuário. Os antigos chamam-na de Caminho das Presenças.

Foi no começo da década de 2000, numa tarde em que o Sol beijava a terra com carinho dourado, que cinco amigos – Alan, Cássio, Júnior, Tainá e Domingos – retornavam de um dia de alegria. Haviam passado horas entre risos, churrasco ribeirinho e mergulhos em um igarapé escondido, daqueles que só os marajoaras conhecem pelo cheiro da mata.

No rádio do carro, tocava Iris, dos Goo Goo Dolls. A brisa entrava pela janela entreaberta e o cheiro de andiroba se misturava com o das roupas úmidas. Tudo era riso e nostalgia. Até que Alan, o mais silencioso do grupo, olhou pela janela traseira e murmurou:

— “Ei… vocês estão vendo aquilo?”

O carro silenciou. Todos olharam. No meio da mata, a cerca de uns vinte metros, uma pequena esfera de luz dançava entre as árvores. Não voava como inseto, nem brilhava como lanterna. Ela… pulsava. Mudava de cor suavemente — azul profundo, amarelo âmbar, rubro como brasa, esverdeado como folha nova, e por fim, lilás como céu antes da tempestade.

— “É só fogo-fátuo”, disse Domingos, tentando parecer racional. “Gases do solo… metano… essas coisas.”

— “Fogo-fátuo muda de cor desse jeito?” – perguntou Tainá, já com os olhos arregalados.

Júnior, curioso e valente por natureza, decidiu descer do carro.

— “Vou lá. Quero ver de perto. Deve ter alguma explicação lógica pra isso.”

— “Júnior, não!” — implorou Tainá. — “E se não for algo da terra?”

Mas o amigo já descia a trilha de folhas e raízes, indo em direção ao orbe. A esfera, como que em resposta, parou. Flutuava, imóvel, no meio da floresta. Observava-o?

Quando Júnior chegou a poucos metros dela, a luz fez algo impossível: dançou em zigue-zague, veloz como pensamento, e então subiu em linha reta, tão rápido que desapareceu entre as nuvens sem deixar rastro.

Todos ficaram imóveis. O silêncio da mata tornou-se sepulcral.

— “Viram isso?” — sussurrou Alan. — “Aquilo… não era deste mundo.”

De repente, o chão pareceu estremecer, como se uma brisa gélida soprasse do centro da terra. O carro morreu. O rádio silenciou. O céu escureceu mais rápido do que devia. Júnior voltou ao veículo, pálido.

— “Não era fogo-fátuo”, murmurou ele. — “Eu ouvi um som. Era… como se mil sussurros falassem comigo ao mesmo tempo.”

Passaram-se horas até que o motor pegasse. Quando enfim voltaram à estrada, o silêncio os acompanhou como um sexto passageiro. Nenhum deles falou do ocorrido nos dias que se seguiram. Tentaram viver como se nada tivesse acontecido. Tentaram.

Anos depois, Domingos, agora físico atmosférico, apresentou em um congresso uma tese sobre plasmoides autônomos e descargas de energia espontâneas em zonas úmidas da Amazônia. Incluiu o caso como “incidente anômalo não resolvido”.

Tainá tornou-se artista plástica e passou a pintar orbes de luz em suas obras, sempre com olhos ocultos e floresta ao fundo.

Júnior desapareceu da cidade meses depois. Seu último bilhete dizia:
“Se um dia eu puder entender o que vi naquela noite, volto para contar. Mas talvez algumas verdades estejam além das palavras.”

Já Alan? Ele voltou à estrada muitos anos depois, sozinho. Estacionou no mesmo ponto e esperou em silêncio. Quando o Sol se pôs e a floresta se fechou em sombras, ele viu. A mesma luz. Flutuando entre os galhos.
E dessa vez, ele não contou a ninguém o que aconteceu.

Alguns dizem que a floresta apenas devolve aquilo que nela se deixa. Outros, que Breves e Anajás guardam mais do que árvores e pássaros. Guardam memórias do que não se pode provar.

E se algum dia você viajar por essa estrada e ver uma esfera de luz mudando de cor no meio da mata…
Não a siga.
Ou siga.
Mas esteja pronto para não ser mais o mesmo.