Um conto folclórico marajoara com ecos de encantamento e mistério.

Por Robson Matos, Conto folclórico com adaptações.

Era um domingo de janeiro, no coração do inverno amazônico. A cidade de Breves, abraçada pelos rios do Marajó, estava mergulhada em um silêncio úmido, quebrado apenas pelo sussurro da garoa. As luzes das poucas ruas pareciam distantes demais para alcançar o pátio do Tiro de Guerra e a mata ao redor respirava viva — coaxos graves de sapos, o trilar metálico dos grilos e, de vez em quando, o baque surdo de um fruto caindo no chão encharcado.

Na guarita, o soldado Dário tentava espantar o sono. Seu rádio portátil, com chiados e estalos, repetia Menina Veneno, de Ritchie. A brasa de seu cigarro era como um farol solitário, piscando no breu.

— “Plantão calmo… até demais”, murmurou, soprando a fumaça.

De repente, um som cortou o ar. Não era humano, nem animal conhecido. Um assobio gélido e prolongado, seguido de um grito que parecia de dor e raiva ao mesmo tempo. O ar gelou. O vento, antes morno, tornou-se afiado. Um arrepio queimou-lhe a nuca.

— “Que diabo foi isso…?”, sussurrou Dário, encostando o fuzil ao ombro.

Foi então que ele viu, no galho alto de uma árvore perto do campo de futebol. Primeiro, apenas uma sombra. Depois, um vulto se delineou sob o véu da chuva: asas largas, penas negras grudadas pelo orvalho, e no meio delas, um corpo humanoide.

No dormitório, Amadeu, seu companheiro de serviço, percebeu a movimentação e saiu correndo.

— “Dário! Que tá acontecendo?” — gritou, mas algo estranho aconteceu: sua voz morreu no ar, como se tivesse sido engolida pela noite.

Dário olhou para ele, os lábios se movendo, mas sem som. Foi então que o mundo ao redor pareceu parar. Nem a chuva caía mais. Nem o coaxar dos sapos. Nem o tic-tac interno do relógio de seu corpo.

O silêncio pesava. E no meio desse silêncio, Dário sentiu: ela estava ali.

Virou o rosto com esforço e a viu com clareza. Os traços humanos eram grotescos: pele pálida e vincada de rugas profundas, como tronco antigo; cabelos longos e brancos, colados ao rosto pela garoa; nariz afilado e curvado; e olhos tão escuros que pareciam buracos.

Mas não ficou assim por muito tempo. Os olhos começaram a arder em vermelho vivo, como brasa em vento forte. A boca se abriu num sorriso lento, revelando dentes longos e irregulares, afiados como cacos de garrafa.

— “É… a Matinta…” — uma voz rouca ecoou na mente de Dário. Ele não sabia se vinha dela, ou de algum canto de sua própria cabeça.

— “Dário! Sai daí!” — Amadeu tentou avançar, mas algo o prendeu no lugar, como se seus pés tivessem criado raízes.

A criatura abriu as asas com um estalo úmido e um cheiro forte tomou o ar — mistura de terra molhada, fumaça de tabaco e coisa morta.

Ela deu um passo. Depois outro. Até que, num salto, caiu sobre Dário. O grunhido que soltou parecia o de uma ave rasgando o próprio peito para sair. As garras, longas e ossudas, cravaram-se no tórax do soldado, que soltou um sopro de dor antes de apagar.

Quando o dia nasceu, o Tiro de Guerra estava mergulhado numa estranha confusão. Dário e Amadeu acordaram atordoados, com as roupas úmidas e o corpo frio. A dispensa havia sido arrombada: café, farinha, feijão e um maço de cigarros sumiram.

Mais tarde, em casa, Dário contou o que lembrava para Dona Noca, sua mãe.

— “Mãe… eu vi… aquilo. Ela me olhou, mãe. Eu não conseguia me mexer.”

— “Eu sei o que tu viste, meu filho”, respondeu a mulher, séria, fazendo o sinal da cruz. — “Foi a Matinta Pereira. Ela veio cobrar o que queria.”

— “Cobrar…? Mas eu nunca…”

— “Não precisa tu dever, menino. Basta ela querer. E quando quer… leva.”

Nos dias seguintes, Breves foi tomada por murmúrios. Pescadores juravam ter ouvido o assobio frio cortando a madrugada. Mulheres mais velhas recordavam a velha lição: deixar café ou fumo na porta para não ser visitado.

E no Tiro de Guerra, o plantão da noite de domingo virou história contada com a mesma seriedade de uma missão de combate. Para uns, era invenção. Para outros, um aviso. Mas todos sabiam: na Amazônia, as histórias não nascem do nada.

Até hoje, quando o vento sopra gelado no inverno marajoara, alguém sempre diz:

— “Escuta… É a Matinta… procurando quem ainda deve fumo.”